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Resenha | Viagem Solitária - João W. Nery

Editora: LeYa
Páginas: 336
Estrelas: ✬✬✬✬✬
Publicado em 2011.


Viagem solitária conta a história de João W. Nery, o primeiro transexual masculino de que se teve notícia no Brasil. Especialmente dedicado a todas as pessoas que se reinventam para achar um lugar no mundo, narra a infância triste e confusa do menino tratado como menina, a adolescência transtornada, iniciada com a “monstruação” e o crescimento dos seios - que fazia de tudo para esconder -, o processo de autoafirmação e a paternidade. São muitos os personagens dessa história: de Darcy Ribeiro, considerado seu mentor intelectual e um dos primeiros amigos a compreenderem-no, a Antônio Houaiss, que, sendo um grande defensor das liberdades democráticas, recomendou seu primeiro livro para publicação, Erro de pessoa: Joana ou João?, do qual foi prefaciador. História de dramas, incompreensões e lutas, Viagem solitária é um livro tecido de dor e de coragem e que anuncia, talvez, um mundo menos solitário para os “diferentes”, para aqueles que não se enquadram entre as maiorias... Por isso, caro leitor, o conselho do mestre Antônio Houaiss: "Leiam-no e humanizem-se".

Eu li este livro através do programa de assinaturas Kindle Unlimited. Só por ele, valeu todo o valor mensal da assinatura. Esse é um ótimo livro, que deveria ser lido e comentado, divulgado e resenhado.

João W. Nery nasceu mulher e ficou famoso por ser "o primeiro transsexual brasileiro". Na verdade, esse é um "problema" que acontece muito mais do que imaginamos. Digo problema entre aspas porque não sei qual é o termo certo. Segundo o código internacional de doenças, isso se chama "transtorno de identidade de gênero", porém, na França, por exemplo, já não é mais considerado doença desde 2010.

De qualquer forma é um problema nascer num corpo com o qual tu não te relaciones, nascer "no corpo errado". E é sobre isso que o livro trata.

João conta nessas memórias toda a sua vida, como foi a descoberta dessa condição, como ele se submeteu ao padrão social, se vestindo e agindo como mulher, quando na verdade, ele sempre foi homem. Como foi a luta pela mudança de sexo, as dificuldades enfrentadas, o preconceito, inclusive da família.

Por sorte, João conseguiu que alguns médicos, a despeito do medo de criminalização, que tentaram ajudá-lo nesse caminho. Ele conseguiu se tornar homem vinte anos antes da cirurgia ser legalizada no Brasil.

Ele conta como foi ter que desistir de todos os seus documentos e certificações, por exemplo. Como mulher, era formado em psicologia, mas quando da transformação, teve que recorrer para documentos falsos e perdeu seu diploma. Conta como foi trabalhar.

Sinceramente, acho que nós, cis, não paramos para pensar na sorte que temos de não termos de lutar por ser quem somos. Antes de ler este livro, não tinha ideia de metade das dificuldades que esse tipo de procedimento incorre. E tudo isso, apenas para ser quem você é. Sem nem falar no preconceito.

São cirurgias e cirurgias, troca de documentos, se reapresentar para as pessoas que você já conhece, inclusive para a própria família. Aí depois de toda a dor e dificuldade de se identificar com o próprio corpo, existem pessoas que condenam, acham pecado, aberração, abominante, pecado. 

Enfim, um livro que muda a perspectiva do leitor. Que te tira da zona de conforto ao apresentar uma realidade diferente e dolorosa. Recomendo para todos.

E você? Já leu?
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